Pois bem, e não é que me atrevi a
contrariar minhas convicções e resolvi assistir a um filme que antes mesmo do
primeiro anúncio ser vinculado nas mídias eu já sabia ser uma verdadeira
catástrofe? Admito que me neguei até agora a conferir esta produção por razões
principalmente ideológicas (que não vem ao caso, pelo menos não aqui), mas
motivado a escrever algo para esta coluna, não pode resistir a tentação de sentar
o martelo nessa desgraça:
Informações Técnicas:
Título: Lula - O Filho do Brasil
Diretor: Fábio
Barreto, Marcelo Santiago
Elenco: Rui
Ricardo Diaz, Glória Pires, Cleo Pires, Marat Descartes, Milhem Cortaz, Lucélia
Santos, Antônio Pitanga, Juliana Baroni
Produção: Paula
Barreto, Rômulo Marinho Jr.
Roteiro: Denise
Paraná, Daniel Tendler, Fernando Bonassi
Fotografia: Gustavo
Habda
Trilha
Sonora: Antonio Pinto
Duração: 130 min.
Ano: 2009
País: Brasil
Gênero: Drama
Distribuidora: Europa
Filmes
Estúdio: Luiz
Carlos Barreto Produções Cinematográficas / Costa Films / Globo Filmes
Classificação: 12 anos
O relato dessa minha desagradável
experiência, que aqui apresento para que vocês não precisem passar por tal
infortúnio, como de costume está recheado de spoilers, para ninguém precisar
assistir à essa porcaria!
Antes de mais nada, quero deixar claro
que apesar de ter posições políticas bem definidas, e, de ter muito a dizer
sobre o PT e sobre o próprio Lula, vou me abster de falar sobre isso
diretamente. Essa postagem é sobre o filme, e não sobre o homem, e muito menos
sobre o partido. Não é minha intenção levar as reflexões para este lado, e se
em algum momento minhas palavras parecerem tender para este lado, tenha em mente,
por favor, que esta é uma análise feita apenas sobre o filme que assisti, e
nada além disso. Ok?
Partindo do princípio, alguns dados que
circundaram todas as críticas feitas ao filme no ano de seu lançamento (2009)
já bastam para causar uma certa antipatia pelo mesmo. A começar pelo preço
dessa brincadeira – 12 milhões de Reais – que faz dele a produção brasileira
mais cara de todos os tempos (aproveito para desmentir os argumentos de alguns
violentos blogueiros anti-petistas que à época acusaram a produção de ter sido financiada
com dinheiro público. Isso é mentira). Fora isso, o fato do filme vir com a
proposta de retratar a vida de um marcante ícone da política nacional, mas que
segundo o próprio diretor (Fábio Barreto) “não tinha a intenção de ser fiel à
realidade” (o que de fato ocorre) já causa desconforto até mesmo nos admiradores
do sr. Luiz Inácio, que esperavam ver um biografia do emblemático torneiro
mecânico que se elegeu Presidente da República e quando chegaram em frente à
tela se depararam com um enorme melodrama exponencialmente exagerado, cheio de
cenas que jamais aconteceram e outras tantas que até ocorreram mesmo, mas foram
tão cobertas de maquiagem para criar uma imagem “heróica” de Lula que acabaram
por fazer exatamente o oposto, gerando críticas negativas em todas as esferas.
Isso além do fato da obra ter sido lançada em ano de eleições presidenciais, dado
por si só substancialmente tendencioso.
Pra ver um spoiler level infinito, faça o seguinte, você
pode assistir a um “compacto” do filme inteiro aqui. Sim, o próprio trailer de
lançamento, com apenas 2 minutos de duração, resume o filme todinho. A história
começa com Dona Lindu (Glóra Pires) dando a luz ao menino Luiz Inácio da Silva
no Sertão Pernambucano, em uma cena tão clichê que chega dar vergonha alheia, e
em seguida mostra a partida dela em direção a Santos, onde o seu marido vivia
com outra mulher, o outro filho do casal e muita cachaça na mente. Depois disso,
o filme segue tentando retratar a trajetória da família até sua chegada a São
Bernardo do Campo, onde Lula consegue fazer um curso de torneiro mecânico no
SENAI e começa a trabalhar com isso, perde o dedinho da mão esquerda, conhece
sua primeira mulher, Lurdes (Cléo Pires), que morre dando a luz, entra para
sindicado dos metalúrgicos do ABC Paulista, conhece sua segunda (e atual) esposa,
Dona Marisa (Juliana Baroni), arruma confusão com o regime militar quando
lidera uma greve de metalúrgicos e acaba preso pelo DOPS, onde fica em cana até
que o filme termina com ele acompanhando o enterro da mãe, com autorização dos
milicos, em 1980 - mesmo ano da fundação do PT.
E isso é o filme todo. Sem exageros da
minha parte. Se assistir ao trailer, você já está mais do que preparado para o
caso de ter algum professor de história ou filosofia que lhe obrigue produzir
uma resenha sobre esse suco de esterco em aula. Vai por mim, não perca seu
tempo assistindo ao filme todo.
Todos os principais fatos estão no
trailer promocional, o resto da produção são uma bela enchessão de linguiça
composta totalmente por cenas que ficam repetindo situações consideradas
apropriadas ao propósito geral do filme, de novo, e de novo, e de novo, usando e
abusando de flashbacks,
trilha sonora carregada de emoção
(onde o volume da música aumenta vertiginosamente em cenas que retratem alguma
passagem dramática) e frases de impacto que na vida real muito provavelmente
nunca foram ditas. Tudo para ter certeza que o público vai
entender bem o sofrimento do pobre homem e entrar no clima pra fazer o
principal: chorar. Isso porque o tempo todo, o filme inteiro sem interrupção, a
intenção dos produtores é fazer você se emocionar e chorar mais que numa novela
mexicana. O que simplesmente não funciona com pessoas que conhecem os
estratagemas furados de forçar o sentimentalismo, usados em abundância pela programação
de domingo da TV aberta.
Original
e teoricamente, o filme seria inspirado no livro “A História de Lula – O Filho
do Brasil” de Denise Paraná (também lançado em 2009), que ao contrário da sua
versão para o cinema é realmente uma obra interessante de se conferir. Apesar
da clara simpatia e posicionamento parcial da autora pelo personagem principal,
a publicação traz pontos bem interessantes a respeito da carreira do
ex-presidente que nunca haviam sido trazidos a público, não ficando apenas
naquele melodrama para tentar fazer dele um messias sem dedo. Aliás, essa é a crítica
mais severa que eu posso fazer à produção, que contraditória e
coincidentemente, é a mesma crítica que municiou 99,99% dos argumentos de quem se
desagradou do filme: é um filme sobre a vida de um político, mas que não retrata
política!
Pude observar o mesmo erro quando assisti ao fraquíssimo Che (2008), de Steven Soderbergh. Onde o
diretor tentou fazer a mesma jogada de idolatria à imagem de Ernesto Rafael Guevara de la
Serna e, sem mais nem menos, deliberadamente ignorou todo o período da
vida do revolucionário argentino em que ele participou da política, cooperando
com a ditadura sangrenta imposta por de Fidel Castro. Fatos essenciais para
entender a mente e o coração do ídolo pop da geração coca-cola. Tanto num filme
quanto no outro, a história acaba justamente na parte que mais importa da
história.
Convenhamos, embora o assunto “política” não seja o mais
popular de todos (infelizmente), se você propõe produzir um filme sobre a vida
de um político, o mínimo que todos esperam é que se fale de política. Nem que
seja um pouco, nem que sejam só fatos superficiais tratados pela imprensa da época...
mas isso simplesmente não existe no filme. Nadica de nada!
Nem mesmo é possível ver a impressionante
e famosa oratória de massas que o fez ser tão querido pelas plateias, apesar de
não ser nada coerente (todos os discursos mostrados no filme dão curtos e
fracos. Sempre seguidos por ovações de "Lula! Lula! Lula!". A única exceção
é a assembleia que aconteceu no estádio da Vila Euclides, em que ele discursou
para 100 mil pessoas, e, para quem já teve oportunidade de ver a cena original,
pode perceber uma assombrosa semelhança entre ambas). O tempo todo os produtores
querem deixar claro que mesmo sendo sindicalista, Lula não era comunista, nem socialista
e nem sequer esquerdista! Todo o lado político, desde a formação do PT e a lisérgica
campanha das “Diretas Já”, ficou de fora. De sua prisão pelo DOPS até o discurso
de sua posse presidencial há um gap temporal muito grande e o que deveria ser o
auge do filme, o ponto mais alto da vida de Lula – a sua primeira eleição à
presidência da república – acaba indo pro ralo em uma deprimente cena pseudo-motivacional.
Nem mesmo uma das principais marcas da personalidade do pernambucano, o pragmatismo,
que fez com que o presidente eleito mantivesse o programa econômico de FHC, que
anteriormente criticou com tanta veemência, para evitar uma crise e o peitasso
que deu ao se colocar contra o próprio partido que ajudou a fundar e logo em
seguida doma-lo por completo, tornando-se maior que a sigla. Nada disso é
mostrado, nenhuma crise, nenhum mensalão, nenhuma união com adversários históricos
em troca de “governabilidade”... NADA!
Independentemente da sua ou da minha
opinião pessoal sobre a figura do ex-presidente Lula, um homem que nasce como
ele nasceu e chega onde chegou, sendo chamado de “o cara” por um dos homens
mais poderosos e influentes do mundo, merece sim que se escrevam biografias e
façam versões destas para o cinema. Considero isso sinceramente muito
importante. Mas, em se tratando de “Lula – O Filho do Brasil” a família Barreto
- Luiz Carlos, produtor, e Fábio, diretor – que detinha nas mãos a oportunidade
de retratar (com recursos de sobra) uma das sagas mais intrigantes da política
brasileira de todos os tempos desperdiçou essa raríssima chance miseravelmente.
Trata-se de um filme fraco, tendencioso,
clichê, sem graça e cheio de uma fantasia asquerosa e mal intencionada que
tenta ser uma espécie de “Dois Filhos de Francisco” versão vermelha. Uma
verdadeira perda de tempo que em nada valeu a quantidade de dinheiro e
publicidade que nele foi investido.





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